Um lugar seguro para compartilhar a jornada

“Essa comunidade é como um ponto de partida para nos incentivar a ir mais longe. Isso desperta coisas em meu coração para continuar.”

Esse comentário veio de um participante do Fórum de Líderes, um projeto piloto online da aliança global Wycliffe. O Fórum foi organizado para facilitar a reflexão e interação entre regiões como um aspecto central do desenvolvimento da liderança. O projeto incentivou o compartilhamento genuíno entre os líderes mais velhos e mais jovens, bem como de caráter cultural e regional. Assim como Deus pretende que vivamos o evangelho dentro do contexto variado da igreja, em vez de como indivíduos independentes; assim, a liderança prospera quando os líderes se reúnem como uma comunidade, em vez de trabalharem isoladamente.

O Fórum de Líderes surgiu do desejo de oferecer um ambiente seguro e envolvente, no qual um pequeno grupo de líderes em toda a Aliança pudesse construir um relacionamento autêntico. Agora que o corona vírus mudou a forma como todos trabalhamos, um desafio adicional é de como tornar esses esforços reproduzíveis, especialmente quando viajar para eventos presenciais não é uma opção.

“Você pode usar eventos para iniciar coisas ou criar uma visão, mas programa não é o caminho para o desenvolvimento da liderança”, diz Todd Poulter, um consultor que ajudou no treinamento de liderança na aliança por vários anos. “Eles podem ser ferramentas, sim, mas nosso objetivo é criar algo que todos possam fazer.”

Emmaus de Janet Brooks-Gerloff, 1992. (Cortesia da Abadia Benedictine Kornelimünster, Aachen, Alemanha)

Uma jornada de desenvolvimento de liderança

As sementes para essa comunidade foram plantadas em 2013 e 2015 em dois eventos internacionais que fizeram parte de um esforço da Aliança, chamado Leaders Journeying Together (líderes caminhando juntos). Os encontros reuniram líderes de várias idades, culturas e nível de experiência para que pudessem compartilhar livremente sua prática, luta e caminhada. Tanto os líderes seniores quanto os mais jovens foram solicitados a deixar de lado títulos e interagir em pé de igualdade.

Foi um tanto desconfortável no início, mas essas regras básicas resultaram em uma oportunidade surpreendente e, para muitos, revigorante de interação honesta e expressão criativa. Os líderes mais experientes foram encorajados a sair das expectativas de ser, nas palavras de Poulter, “sem defeito, sem culpa e consistentemente competente”. Isso permitiu que eles falassem sobre experiências difíceis, fraquezas e lições aprendidas. Para alguns, no primeiro evento realizado no Quênia, o destaque da semana foi ouvir líderes mais experientes falando sobre os desafios que enfrentaram. “Muito obrigado!” disse um dos líderes mais novos. “Sinto que posso voltar e fazer meu trabalho agora porque ouvi as dificuldades que você teve de superar, e vejo que não sou o único.”

Um segundo evento na Turquia introduziu o conceito da “Terceira Mesa.” Os participantes se dividiram em duas mesas: o hemisfério norte/ Oeste e Sul/Leste. Cada mesa respondeu à pergunta: “Quais valores característicos de sua região você gostaria de oferecer como presentes para seus colegas do hemisfério Norte/Sul para fortalecer nossa comunidade?” A mesa destinatária foi autorizada a aceitar, rejeitar ou solicitar esclarecimentos sobre cada presente. Uma lista de presentes foi então compilada para criar uma outra Terceira Mesa com valores, cultura e práticas estabelecidas. Um participante disse que nunca se sentiu ouvido por seus colegas do hemisfério norte em todos os seus anos de experiência missionária. “É a primeira vez que participo de uma reunião com os norte-americanos onde pudemos negociar”, disse ele. “Eles normalmente apenas nos ditam – ‘É assim que vai ser.’”

Em 2018, um terceiro evento foi realizado na Alemanha para dar início a uma comunidade de desenvolvimento de liderança transregional e plurianual. Os diretores da região da África, Europa e Américas selecionaram líderes de cada região para participar (Uma coorte posterior acrescentou líderes da Ásia-Pacífico). Relacionamentos foram desenvolvidos e várias ideias foram levantadas, como ler um livro juntos. Era difícil, no entanto, criar tempo na agenda lotada para tal compromisso. Um grupo de Whatsapp serviu como um veículo eficaz para compartilhar pedidos de oração, ideias e encorajamento. Mas os organizadores esperavam encontrar uma forma de facilitar o compartilhamento contínuo em um nível mais profundo.

Indo mais fundo

Poulter e David Cárdenas, que lidera o COMIBAM e atuam como facilitadores para a equipe de liderança da Aliança nas Américas, tiveram a ideia de envolver um subconjunto menor dessa comunidade de desenvolvimento de liderança que interagiria com mais regularidade. Sob a liderança de Mũndara Mũturi, ex-Diretora Executiva Associada da Aliança para Regiões e Diretora de Desenvolvimento de Liderança, nasceu o projeto piloto. O Fórum de Líderes começou em junho de 2020 com nove participantes – das Américas, Europa, Ásia e África. Juntos, eles representaram uma série de experiências de liderança e, é claro, histórico cultural. Os participantes se comprometeram a ler um livro juntos, e a passar até uma hora por semana interagindo online sobre o que estavam lendo. Eles escolheram o livro do Dr. Kirk Franklin Liderança Missional e Global: Uma jornada rumo a um novo paradigma na missão de Deus, um livro que muitos já haviam expressado interesse em ler.

O objetivo era ter uma interação interna e não apenas uma comunicação unilateral. O grupo recorreria ao livro de Franklin como um “recurso vivo”, explorado por meio da reflexão da comunidade, em vez de simplesmente ser lido isoladamente. Mi Comunidad, o fórum online da aliança global Wycliffe das Americas, ofereceu uma plataforma conveniente para compartilhamento. Os participantes se inscreveram no grupo de discussão do Fórum de Líderes, para responder a algumas perguntas sobre o capítulo atual e foram solicitados a responder aos comentários de outras pessoas também. Uma vez por mês, eles se reuniam, on-line, para uma videoconferência para discutir o que estavam lendo, e como isso se relacionava com sua vida de liderança. Os participantes usaram seu idioma preferido (neste caso inglês ou espanhol), com tradução oferecida pelos outros participantes.

“É realmente uma ideia muito simples”, diz Poulter. “Escolha um bom recurso. Interaja em uma plataforma que funciona. Ouça a experiência de cada um em lugares e desafios muito diferentes, e cresça assim. E então procure formas de compartilhar seu aprendizado com outras pessoas”.

Em meses alternados, o grupo lia capítulos do próximo livro de Poulter sobre liderança cristã, Learning to Lead at the Feet of Jesus (Aprendendo a liderar aos pés de Jesus). O capítulo de julho, intitulado “O Instrumento Principal de Deus”, apresentou o conceito de que os líderes são os principais instrumentos que Deus usa para desenvolver outros líderes. “Da mesma forma que é preciso discípulos para desenvolver discípulos que desenvolvem discípulos; é preciso líderes para desenvolver líderes que desenvolvam líderes”, diz Poulter. “O objetivo desse projeto piloto, é que as pessoas cresçam por meio de sua interação, e que passem o que estão aprendendo para outras pessoas em suas respectivas esferas de influência”. Foi animador, diz Poulter, ouvir um comentário de um participante sobre seu aprendizado inicial com o livro de Kirk Franklin: “Vou compartilhar isso com minha equipe de liderança”.

Refletindo juntos

Os líderes compartilhando o que aprenderam, tem sido um dos principais temas na iniciativa de treinamento de liderança da Aliança. Mũturi orientou essas iniciativas e participou. Mũturi desafiou os líderes com a pergunta: “Você é um cano ou um gargalo?” Muitos líderes são um gargalo, disse ele, o que significa que o que entra permanece apenas na garrafa. Os líderes, disse ele, precisam ser mais como um cano, permitindo que o que aprenderam flua livremente para aqueles que lideram.

Em sua primeira vídeo chamada no Zoom, vários participantes do Fórum de Líderes disseram que já sabiam que a missão é de Deus, mas era bom ser lembrado disso. Como uma pessoa observou: “Quando não entendemos a missão de Deus, nos concentramos muito nas estruturas, números, edifícios e atividades”, em vez da missão em si. Outro confessou que luta para ser impulsionado à atividade constante. “Percebi, especialmente durante o COVID-19, que Deus ainda está cumprindo Sua missão mesmo quando não posso ser tão ativo quanto gostaria de ser.”

Outro participante disse que em sua pressa de realizar as coisas: “Não tenho certeza se vem do Senhor ou da minha própria força. Essa oportunidade de refletir me ajuda a conter essa tendência e me tornar um profissional mais reflexivo”. Um líder comentou sobre a importância da reflexão para aprender e crescer: “Vejo líderes ao meu redor liderando de forma vaga porque não param para refletir”.

Cárdenas disse ao grupo: “Enquanto ouço todos vocês, o que estou percebendo é que o livro de Kirk é uma plataforma para refletirmos juntos. Nosso desafio é: como impactar os outros com esta nova forma de liderança?” O sucesso já começou, não apenas dentro da Aliança, mas também em conexões ministeriais mais amplas. Um líder convidou pessoas para uma reunião virtual de oração, para refletir sobre o que significa fazer parte da missão de Deus. Outro líder, que ajuda a liderar um grupo de jovens em sua igreja, começou a se relacionar com vários jovens líderes para que eles pudessem se desenvolver, liderar e crescer.

Um participante expressou urgência: “Para o movimento missionário aqui em nossa região, não temos a intenção de compartilhar a liderança com a próxima geração e nos preparar para o futuro”.

“Como líderes”, disse outra pessoa, “somos incentivados a ajudar os líderes mais jovens a compreender o mundo que nos rodeia, como liderar durante uma crise”.

“Você não precisa ser um líder especialista para investir nos outros”, disse outro.

Um lugar seguro para crescer

Vários participantes comentaram como foi útil ter um lugar seguro para ser vulnerável com outros líderes. Uma pessoa disse em uma conversa por vídeo: “No meu contexto, a única forma de ser um líder respeitado é esconder quem você realmente é, para o bem de sua reputação. Você é incapaz de reconhecer ou compartilhar suas fraquezas porque as pessoas o desrespeitarão. Mas aqui, nesse grupo, posso dizer a verdade sobre quem sou como líder”.

“Culturalmente, não falamos sobre essas coisas”, disse outro líder. “Este é o único lugar que eu tenho para interagir sobre ser um líder. Em outros contextos, sou obrigado a ser um líder, fazer coisas, distribuir etc. Esse é um lugar onde posso refletir sobre minha prática como líder, meu exercício de liderança e aprender com outros líderes”.

Poulter comenta: “O objetivo é que eles, por sua vez, sejam capazes de criar lugares seguros para os outros e que criem uma ‘contracultura’ de liderança em seu próprio contexto, onde quer que o sistema de valores prevalecente do que significa ser um bom líder é construído sobre um fundamento antibíblico. Ter coragem e esperança suficiente para interagir nesse pequeno grupo para criar essa mesma cultura com líderes em seu contexto”.

Como o Dr. Joshua Boganjoko, Diretor Internacional da SIM, escreve em Rethinking Leadership: How African Village Traditions and the Bible Point For Renewed Leadership (Repensando a liderança: como as tradições das aldeias africanas e a Bíblia apontam para uma liderança renovada)::

“… Em minha própria jornada de discipulado, comecei a compreender a influência de minhas origens em meus valores e práticas de liderança, e como o Espírito Santo, por meio da Palavra, pode usar e transformar minha rica herança, bem como a de outras pessoas. … Mas, para compreender e apreciar totalmente o impacto de modelos culturais profundamente arraigados, será necessário engajar-se na reflexão guiada pelo Espírito Santo, para examinar de forma compassiva, porém crítica, onde estamos …”.

“Nosso desafio é mudar de um estilo corporativo de liderança autoritária para um ambiente comunitário de amor”, disse um participante.

“Os líderes devem criar um ambiente no qual os outros possam prosperar”, acrescenta Poulter.

Líderes aprendendo juntos

Foi gratificante para os organizadores ver a interação sincera acontecer por meio desse projeto piloto. Uma comunidade começou a surgir. Líderes envolvidos com ideias relacionadas à missão de Deus e liderança bíblica. Eles refletiram juntos sobre o que estavam aprendendo e como poderiam aplicar esse conhecimento como líderes. “É gratificante, para mim, poder fortalecer minha vida como líder”, disse um participante do Fórum, “não fazendo, mas sendo e influenciando os outros”.

Deus pode trazer vários resultados por meio desse experimento, mas uma conclusão clara é a confirmação de que o desenvolvimento da liderança acontece melhor na comunidade, não em isolamento. E embora possa haver valor em sediar eventos que moldam a visão e reuniões participativas maiores, às vezes usar um formato que é “pequeno o suficiente, mas grande o suficiente” é a chave para cultivar o relacionamento e compartilhamento honesto. Nosso contexto atual também requer encontrar formas criativas de reunião, que se encaixe na agenda lotada das pessoas e na realidade pós-COVID.

Uma esperança para o estabelecimento de uma comunidade de desenvolvimento de liderança da Aliança, a partir da qual esse fórum online foi gerado, era criar um formato que pudesse ser sustentável. Como diz Poulter, “o treinamento de liderança torna-se sustentável quando um líder passa para outros líderes que passam para outros líderes. Eles não precisam de dinheiro para fazer isso. Eles não precisam de materiais. Seu currículo é sua vida. Seu currículo é a Escritura”.

“Durante a pandemia”, disse um participante, “não estamos trabalhando em nossa mesa no nosso escritório. Estamos trabalhando da mesa da nossa cozinha, de nossa casa. Precisamos ser pessoas reais, liderando não apenas por nossos cargos e plataformas organizacionais, mas por nossa realidade, por nossas responsabilidades diárias. Somos pessoas comuns que precisam trocar fraldas e lavar pratos. Esse é o tipo de líder real que devemos ser”.

Foto: Elyse Patten

Um instrumento durante a noite

Essa comunidade piloto online, ofereceu um modelo simples que poderia ser adaptado em vários contextos. Talvez o primeiro passo para os líderes seja perceber que não podem liderar por conta própria. Não é apenas necessária uma comunidade, mas também depende de Jesus. Como disse um líder: “Sinto que … sou um instrumento durante a noite. Às vezes eu não vejo muito claramente o que preciso fazer. Deus não me mostra a visão completa. Eu não sei para onde estou indo… Quero me aproximar de Jesus, reconhecer Sua voz, pois minha experiência me diz que não sou capaz de fazer as coisas que são exigidas de mim como líder. Então isso me leva a Jesus”.

História: Gwendolyn Davies, Todd Poulter
Assistência de Jim Killam

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